CARTA DE PRINCÍPIOS DA COMUNIDADE MARRANA CABALÍSTICA (BNEI ANUSSIM) DO RIO GRANDE DO NORTE



A COMUNIDADE MARRANA CABALÍSTICA (BNEI ANUSSIN) DO RIO GRANDE DO NORTE nasce do reconhecimento histórico, espiritual e ético da presença de descendentes de cristãos-novos — judeus e judias convertidos à força em Portugal — no território nordestino brasileiro; e da permanência, muitas vezes velada, de elementos do Hebraísmo e da Cabala em suas práticas, símbolos, memórias e sensibilidades espirituais.


1. DA MEMÓRIA, DA IDENTIDADE E DO RETORNO CONSCIENTE


A COMUNIDADE tem como um de seus princípios fundamentais contribuir para o retorno consciente, livre e responsável, de todas e todos os descendentes de cristãos-novos à Tradição Abraâmica de matriz hebraica, compreendida aqui como herança espiritual, cultural e ética.

Esse retorno não exige o apagamento das experiências históricas, culturais, religiosas e simbólicas vividas por seus antepassados ao longo dos séculos de perseguição, dissimulação, adaptação e resistência. Ao contrário, reconhece-se que tais experiências — muitas vezes marcadas pela dor, pelo silêncio e pela cripticidade — fazem parte constitutiva da identidade marrana e devem ser integradas com dignidade e consciência.


2. DA CABALA COMO CAMINHO DE RECONEXÃO ESPIRITUAL


A COMUNIDADE afirma a Sagrada Cabala como um dos principais caminhos de reconexão espiritual com o Hebraísmo, especialmente por sua profunda presença entre judeus e marranos perseguidos, que a tornaram críptica (Criptocabala), simbólica e velada, como forma de sobrevivência espiritual.

A Cabala é aqui compreendida não como instrumento de poder, elitismo ou superstição, mas como tradição sapiencial, ética e mística, voltada à transformação interior, à elevação da consciência e à reparação do mundo.


3. DA LIBERDADE, DA DIGNIDADE HUMANA E DA NÃO EXCLUSÃO


A COMUNIDADE MARRANA CABALÍSTICA (BNEI ANUSSIN) DO RIO GRANDE DO NORTE declara, de forma explícita e inequívoca, que:

Não possui qualquer vínculo com movimentos políticos-partidários, ideologias extremistas, governos autoritários ou projetos de poder;

Não apoia manifestações religiosas ou culturais que promovam exclusões, discriminações ou hierarquizações baseadas em etnia, raça, gênero, orientação sexual ou condição social;

Rejeita toda forma de fundamentalismo, ortodoxia opressiva ou instrumentalização da espiritualidade para fins de dominação.

A dignidade do ser humano é considerada um princípio inegociável.


4. DA ABERTURA AO CHAMADO ESPIRITUAL


A COMUNIDADE é aberta a todo ser humano que sentir o Chamado espiritual para conhecer e vivenciar:

A Cabala;

A Tradição Abraâmica em sua matriz hebraica; 

O legado espiritual transmitido ao longo do tempo por sábios hebreus, judeus e marranos, muitos dos quais cabalistas, que mantiveram viva essa tradição mesmo sob perseguição, exílio e silêncio forçado. Não se trata de imposição identitária, mas de escuta, estudo, vivência e amadurecimento espiritual.





5. DO TIKUN OLAM (A REPARAÇÃO DO MUNDO)


A COMUNIDADE compreende sua atuação espiritual, cultural e educativa como contribuição concreta para a realização do Tikun Olam — a reparação do mundo — por meio:

Do resgate da memória histórica;

Da justiça espiritual;

Do diálogo entre tradição e contemporaneidade; 

Da promoção da consciência, da paz e da responsabilidade ética.

A espiritualidade aqui não se separa da vida, da história nem do cuidado com o outro.


CONCLUSÃO


A COMUNIDADE MARRANA (BNEI ANUSSIN) DO RIO GRANDE DO NORTE se reconhece como herdeira de uma tradição ferida, porém viva; silenciada, porém resistente; oculta, porém luminosa. Seu compromisso é com a verdade histórica, a liberdade espiritual e a construção de um mundo mais justo, consciente e reconciliado.


Que a memória seja reparada.

Que a luz retorne.

Que o mundo seja curado.

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